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13 de setembro de 2024

Olfato em Foco

Treinando o olfato: como o cheiro molda a memória e o cérebro

A relação entre o olfato e a memória é uma das conexões neurobiológicas mais profundas do corpo humano. Não se trata apenas de identificar um aroma agradável ou desagradável; o sistema olfativo possui uma ligação anatômica direta com os centros de emoção e memória do cérebro, como a amígdala e o hipocampo.

Essa arquitetura única explica por que o olfato exerce um papel essencial na saúde cognitiva, impactando desde a evocação de lembranças complexas até a modulação do nosso bem-estar. O Treinamento Olfativo (TO) surge, portanto, como uma ferramenta estruturada para aprimorar essa conexão, com implicações significativas na capacidade do cérebro de se adaptar, conhecida como neuroplasticidade.

O olfato como sentinela da saúde mental

A profundidade dessa conexão é clinicamente relevante. Estudos longitudinais demonstram que a disfunção olfativa severa (anosmia) é um dos sintomas mais precoces de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. Esse sinal pode manifestar-se anos antes dos déficits motores ou de memória.

Pesquisas de neuroimagem fornecem a base para essa ligação: pacientes com disfunção olfativa apresentam maior atrofia em regiões críticas para a memória. Além disso, marcadores patológicos do Alzheimer (como agregados de proteínas tau e ) são frequentemente encontrados precocemente no bulbo olfativo.

A boa notícia é que o sistema olfativo pode ser um aliado no tratamento. Pesquisas indicam que intervenções focadas na mucosa olfativa podem ajudar a atenuar o declínio cognitivo e reduzir a neuroinflamação.

A mecânica da memória olfativa

O olfato atua como um poderoso gatilho contextual. O simples ato de sentir um cheiro pode evocar memórias autobiográficas vívidas e carregadas de emoção – um fenômeno conhecido como “Fenômeno de Proust”.

Isso ocorre porque o cérebro não processa odores isoladamente; ele os percebe de forma sintética, criando “objetos de odor”. Um cheiro, como o de café, é um construto cognitivo aprendido através da associação entre moléculas e uma fonte. O treinamento olfativo baseia-se na exposição estruturada a esses odores para estimular a neuroplasticidade.

Como o treinamento olfativo modifica o cérebro?

Os benefícios do treinamento estão ligados a dois processos-chave: neuroplasticidade e neurogênese adulta.

O bulbo olfativo é uma das poucas regiões do cérebro adulto onde novos neurônios são continuamente gerados. O treinamento olfativo atua como um modulador dessa plasticidade. A exposição repetida a um odor específico acelera seletivamente o nascimento de neurônios sensoriais que respondem àquele cheiro. Além disso, o aprendizado não só repõe células, mas aumenta a densidade dos “pontos de conexão” (espinhos dendríticos) entre os neurônios, fortalecendo a comunicação entre o nariz e o córtex cerebral.

Treinamento olfativo para todas as pessoas

O treinamento olfativo é benéfico em diferentes contextos. Em pacientes com disfunção olfativa pós-infecciosa, o treinamento demonstrou induzir efeitos duradouros.

Para indivíduos saudáveis, o treinamento atua como um exercício cognitivo. A dificuldade em nomear odores é uma limitação conhecida da cognição humana, e o treinamento desafia essa capacidade. Profissionais como perfumistas e sommeliers, que praticam a verbalização de odores, fortalecem redes neurais semânticas, consolidando a prática como um exercício cerebral completo.

Setembro e a conscientização do Alzheimer

Setembro é o mês dedicado à conscientização do Alzheimer. A pesquisa sobre o olfato não se limita apenas ao diagnóstico precoce; ela está na fronteira da terapêutica. Descobertas recentes mostram que receptores olfativos são encontrados também no cérebro e podem estar envolvidos na fisiopatologia da neurodegeneração.

Por isso, o Grupo Boticário, através do Centro de Pesquisa do Olfato, reforça seu compromisso com a saúde cognitiva apoiando anualmente o evento “Despertando a Sociedade para a Saúde do Cérebro”, promovido pelo Instituto Supera.

A 6ª edição do evento, que foi gratuita e híbrida, foi gravada e está disponível para quem deseja descobrir como cultivar um estilo de vida benéfico para o cérebro.

Assista à gravação completa:

3 Exercícios de estimulação olfativa

Para quem deseja começar a estimular o cérebro através do olfato, separamos três exercícios simples baseados em protocolos científicos que podem ser realizados em casa.

1. O Protocolo Clássico (Treinamento de Discriminação)

Este é o método mais utilizado em pesquisas para reabilitação e estímulo cognitivo.

  • O que você precisa: 4 frascos contendo óleos essenciais ou itens naturais com cheiros distintos. A combinação clássica é: Rosa (floral), Eucalipto (resinoso), Limão (frutado) e Cravo (especiaria).
  • Como fazer: Duas vezes ao dia (manhã e noite), cheire cada frasco por aproximadamente 20 segundos.
  • O segredo: Enquanto inala, tente visualizar mentalmente o objeto que produz aquele cheiro. A atenção plena é fundamental para ativar as vias neurais.

2. O Teste de Adivinhação (Desafio Cognitivo)

Este exercício aumenta a carga cognitiva, forçando o cérebro a buscar informações na memória sem o auxílio visual.

  • O que você precisa: Peça a ajuda de outra pessoa ou use frascos opacos/vendados contendo itens da sua cozinha (café, canela, baunilha, hortelã) ou até mesmo seus perfumes favoritos.
  • Como fazer: Embaralhe os frascos e tente identificar o cheiro sem olhar o conteúdo.
  • Variação: Tente classificar a intensidade do cheiro em uma escala de 1 a 10. Isso obriga o cérebro a processar o odor de forma analítica.

3. Atenção Plena Olfativa (Mindfulness Olfativo)

Este exercício integra o olfato à rotina diária, combatendo a desatenção habitual aos cheiros causada pela rotina.

  • Como fazer: Escolha três momentos do seu dia para focar exclusivamente no cheiro do ambiente, ignorando a visão e a audição por alguns segundos.
    • Exemplo 1: Ao acordar, sinta o cheiro do travesseiro ou do ar da manhã.
    • Exemplo 2: Durante o banho, foque no cheiro do sabonete ou xampu, tentando descrever suas notas mentais (é doce? cítrico? amadeirado?).
    • Exemplo 3: Antes de comer, dedique 15 segundos apenas para sentir o aroma da comida antes da primeira garfada.

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