26 de janeiro de 2026
BlogNotíciasOlfato em FocoDa Psicologia à Genética: como a Ciência Molecular pode revolucionar o treinamento olfativo
O olfato é uma ponte essencial para o nosso bem-estar, conectando-nos a memórias, emoções e à nossa segurança. Atualmente, o Treinamento Olfativo é o método padrão para auxiliar na recuperação desse sentido após perdas causadas por vírus ou outros fatores. No entanto, um estudo recente publicado na revista científica The Laryngoscope sugere um salto tecnológico: passar de uma prática baseada em teorias psicológicas centenárias para uma abordagem de precisão baseada nos nossos genes.
O Legado de Henning: Por que treinamos com Rosa, Limão, Eucalipto e Cravo?
A utilização desses quatro aromas específicos remonta a 1916 e baseia-se no “Prisma de Odores” do psicólogo Hans Henning. Henning acreditava que todas as percepções olfativas poderiam ser organizadas em categorias psicológicas básicas. Embora esse método tenha demonstrado eficácia clínica ao longo dos anos, ele não foi desenhado com base na biologia molecular das nossas células. O novo estudo revela que essa combinação clássica ativa cerca de 39,2% da diversidade de receptores do nariz humano — um número relevante, mas com ampla margem para otimização.
A Biologia da Sobrevivência: “Use ou Perca”
A ciência da recuperação baseia-se na neuroplasticidade e na sobrevivência celular. O nosso sistema funciona sob a regra da sobrevivência dependente de atividade: os neurônios do nariz precisam ser estimulados para continuarem vivos e corretamente ligados ao cérebro.
- Neurônios ativados apresentam uma sobrevivência aumentada em comparação aos não ativados.
- Estudos genéticos mostram que neurônios que carecem de atividade perdem gradualmente sua função e desaparecem do epitélio olfativo.
- Portanto, o objetivo de um treinamento otimizado é “acordar” a maior variedade possível de receptores para manter o sistema funcional.
A Nova Fronteira: Dados Moleculares e Transcriptômica
Para elevar a eficácia do treinamento olfativo, os investigadores analisaram o banco de dados, que sintetiza 25 anos de pesquisas sobre como centenas de odores interagem com os 385 tipos de receptores olfativos humanos.
- Através da transcriptômica — o estudo de quais genes estão mais ativos na nossa mucosa — a equipe identificou os receptores que são mais abundantes e funcionalmente cruciais para o ser humano.
- Em humanos, esses receptores altamente expressos são especializados na detecção de odores alimentares importantes.
- O objetivo foi encontrar a combinação mínima de substâncias capaz de estimular a maior parte do repertório olfativo humano.
O Kit Otimizado e a Experiência Sensorial
A análise de dados resultou na proposta de uma nova combinação de quatro moléculas:
- Galaxolida: Possui um aroma almiscarado e floral. No estudo, revelou-se a molécula mais potente, ativando sozinha 275 tipos de receptores.
- Acetato de Eugenila: Combina o aroma de cravo com notas florais. Traz um calor familiar, mas com uma delicadeza superior à do cravo puro.
- (-)-Mentol: Proporciona a sensação de menta gelada e refrescante. É fundamental para ativar receptores ligados ao frescor nas vias nasais.
- Acetato de Geranila: Apresenta um aroma que mistura notas herbais e florais. Remete ao frescor de folhas verdes e jardins.
Juntas, essas substâncias podem ativar teoricamente 83,9% dos receptores humanos, cobrindo quase 70% da capacidade total de expressão do nosso nariz.
Transparência e Validação Clínica
Como em todo progresso científico, é vital tratar esses dados com rigor. Este é um estudo inicial baseado em simulações computacionais (in silico).
- Embora os resultados teóricos sejam promissores e ofereçam uma base científica mais sólida que o modelo de Henning, a sua superioridade real precisa ser confirmada através de validação clínica com pacientes reais.
- Além disso, variações genéticas individuais podem influenciar como cada pessoa responde a esses estímulos.
No Centro de Pesquisa do Olfato, acreditamos que este caminho baseado em evidências robustas é o que permitirá, no futuro, tratamentos mais precisos, seguros e personalizados para as disfunções do olfato.
Referências Bibliográfica
Nishijima H, Holbrook EH, Schwob JE, Mori E, Kagoya R, Ogawa K, Horikiri K, Kondo K. Optimizing Odorants for Olfactory Training Based on Olfactory Receptor-Ligand Pair Analysis. Laryngoscope. 2026 Jan;136(1):384-394. doi: 10.1002/lary.32437. Epub 2025 Jul 18. PMID: 40679176; PMCID: PMC12770814.