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28 de novembro de 2025

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Olfato e Cérebro: Estudo revela como a expectativa cria “alucinações olfativas” reais

Na ciência sensorial, o modelo clássico sugere que o olfato é um processo linear: moléculas químicas estimulam receptores no nariz, que enviam sinais ao cérebro. No entanto, um estudo publicado na Scientific Reports desafia essa visão, demonstrando que a percepção olfativa pode ser gerada inteiramente pelo cérebro, sem a presença de qualquer odorante físico.

A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Helsinque, revela que a crença de que um cheiro está presente é suficiente para produzir sensações olfativas detalhadas, um fenômeno explicado pela teoria do Processamento Preditivo (PP).

O Experimento: Enganando os Sentidos com Realidade Virtual

Para investigar se a mente pode “alucinar” cheiros, os pesquisadores desenharam um experimento comportamental controlado utilizando Realidade Virtual (RV). Trinta participantes foram expostos a um ambiente imersivo de uma floresta amazônica em 360 graus.

O grupo foi dividido em duas condições distintas:

  • Grupo Controle: Assistiu ao vídeo sabendo que se tratava apenas de uma experiência audiovisual.
  • Grupo de Manipulação: Foi levado a acreditar que a experiência incluía uma tecnologia avançada de simulação olfativa. Para reforçar a crença, os pesquisadores apresentaram um aparato falso — uma “máquina de odores” com difusor e cabos visíveis — e instruíram os participantes de que vapores seriam liberados na sala.

É fundamental notar que, em ambos os casos, nenhum estímulo olfativo foi liberado. O ar permaneceu quimicamente neutro.

Resultados: Cheiros Reais, Origem Imaginária

Os dados mostraram uma diferença estatística significativa entre os grupos. Enquanto o grupo de controle não relatou cheiros, os participantes do grupo de manipulação descreveram sensações olfativas vívidas e classificaram o realismo do cheiro muito acima do controle.

As descrições não foram genéricas. Os participantes relataram aromas específicos e congruentes com o cenário visual da floresta, como “lama”, “frescor”, “água suja”, “flores” e “terra molhada”. Isso comprova que a expectativa de curto prazo pode efetivamente modular a experiência sensorial.

A Ciência por Trás: O Cérebro como Máquina de Previsão

Este fenômeno valida o Processamento Preditivo (PP) aplicado ao olfato. Segundo esta estrutura teórica, o cérebro não processa passivamente as informações sensoriais; ele atua como um “motor de previsão” probabilístico que gera modelos top-down (de cima para baixo) sobre o ambiente.

O processo ocorre em três etapas:

  1. Previsão: Ao ver a floresta e receber a sugestão verbal da “máquina de cheiros”, o cérebro antecipa o estímulo olfativo.
  2. Alucinação Controlada: Na ausência de dados sensoriais reais (moléculas no ar), o cérebro preenche a lacuna utilizando seus modelos internos e memórias anteriores para construir a percepção.
  3. Confirmação Perceptiva: O indivíduo sente o cheiro “realmente”, pois o córtex olfativo está respondendo à previsão interna e não ao ambiente externo.

O estudo sugere que o que percebemos como realidade é, muitas vezes, uma “alucinação controlada” ajustada pelas nossas expectativas.

Implicações Futuras: Reabilitação e Tecnologia

A descoberta de que a manipulação de expectativas pode induzir sensações olfativas tem implicações profundas para a medicina e a tecnologia:

  • Tratamento de Anosmia e Reabilitação Pós-COVID: O uso de RV combinado com indução de expectativas pode auxiliar na reabilitação de pacientes que perderam o olfato (anosmia ou hiposmia), ajudando o cérebro a reativar vias neurais através da memória e previsão, oferecendo um caminho teórico para a restauração sensorial.
  • Compreensão de Desordens Neurológicas: O estudo fornece um modelo seguro para investigar alucinações olfativas (fantosmia) comuns em distúrbios psiquiátricos e neurológicos, como Esquizofrenia, Parkinson e Demência com Corpos de Lewy, onde o sistema preditivo do cérebro pode estar gerando “erros” perceptivos sem controle externo.
  • Imersão Tecnológica: Para o desenvolvimento de experiências virtuais, os resultados indicam que a fidelidade sensorial pode ser alcançada através de sugestão visual e narrativa, sem a necessidade imperativa de hardware complexo para emissão de químicos.

Este estudo reafirma que o olfato é uma modalidade sensorial complexa, onde a fronteira entre a química do ambiente e a construção mental é muito mais tênue do que a ciência acreditava anteriormente.Fonte:
Berg A, Henttonen P. Believing in simulated virtual scents produces reported olfactory sensations. Sci Rep. 2025 Nov 24;15(1):41583. doi: 10.1038/s41598-025-25418-1. PMID: 41286141; PMCID: PMC12644582.