27 de fevereiro de 2026
NotíciasOlfato em FocoMuito além do cheiro: como o seu nariz sente a “textura” do mundo (e o futuro de quem perdeu o olfato)
Quando você inspira o aroma de um café fresquinho ou recua ao sentir o cheiro de fumaça, parece que é tudo obra de um único sentido, certo? Na verdade, o que chamamos de “cheirar” é uma construção sofisticada do nosso cérebro. É um trabalho em equipe impressionante entre duas partes diferentes do nosso corpo.
Neste Mês da Conscientização da Anosmia (a perda do olfato), convidamos você a descobrir o que acontece nos bastidores do seu nariz. Existe um segundo protagonista nessa história — responsável por dar “textura” e sensação física aos cheiros — que não só nos protege, como pode ser a chave tecnológica para devolver a percepção a quem não sente mais aromas.
Os Dois Detetives do Nariz
Imagine que dentro da sua cavidade nasal existem dois detetives trabalhando juntos:
- O Nervo Olfatório: Ele é o especialista em identidade. É ele que avisa se o cheiro é de baunilha, de terra molhada ou de perfume.
- O Nervo Trigêmeo: Ele é o especialista no “tato”. Ele não sente o cheiro, mas sente a temperatura, a dor e a irritação.
Sabe aquele frescor geladinho quando você cheira uma folha de hortelã? Ou a ardência ao cheirar pimenta? Ou até o formigamento no nariz ao abrir um refrigerante? Nada disso é olfato. É o nervo trigêmeo agindo. A ciência chama essa capacidade de “tocar” os cheiros de quimiostesia. É a união desses dois detetives, junto com o paladar, que forma o sabor completo das coisas.
Como o Nariz Sabe o que é Quente ou Frio?
Se o nervo trigêmeo não tem um termômetro, como ele sabe que a menta é “fria” e a pimenta é “quente”?
Nas pontinhas desse nervo existem sensores microscópicos chamados Canais TRP. Pense neles como fechaduras superinteligentes que só abrem com chaves específicas:
- O sensor TRPM8 é ativado pelo frio e pelo mentol. Ele informa ao cérebro aquela sensação de “nariz aberto”.
- O sensor TRPV1 é ativado pelo calor e pela pimenta.
- O sensor TRPA1 é o nosso alarme de emergência. Ele reage à fumaça, cloro ou alho, e faz a gente prender a respiração ou espirrar para se proteger.
Esses dois detetives conversam o tempo todo. Se o trigêmeo sente um perigo muito forte (como um produto de limpeza forte), ele libera substâncias químicas que “desligam” o olfato temporariamente. É o corpo abafando os cheiros para proteger suas células mais delicadas.
O GPS do Cheiro
Outro detalhe fascinante: o nervo olfatório não tem “GPS”. Se você fechar os olhos, não consegue saber se um cheiro puro entrou pela narina direita ou esquerda. Quem faz esse mapeamento espacial de onde o cheiro está vindo é exclusivamente o nervo trigêmeo!
A Perda do Olfato e o “Nariz Ciborgue”
E quando a pessoa perde o olfato (anosmia)? O cérebro se adapta. Curiosamente, quem perde o olfato durante a vida costuma ficar com o nervo trigêmeo menos sensível. Já quem nasce sem olfato desenvolve um nervo trigêmeo superpoderoso para compensar a falta do outro sentido desde bebê.
Mas a grande notícia vem da tecnologia. Como o nervo trigêmeo costuma continuar funcionando mesmo quando o olfato falha, cientistas descobriram que podem usá-lo como uma “estrada alternativa” para enviar informações ao cérebro.
Em um estudo recente (publicado em 2025), pesquisadores criaram um dispositivo incrível:
- Um “nariz eletrônico” capta o cheiro no ar.
- Ele transforma esse cheiro em pequenos pulsos elétricos (como vibrações).
- Um clipe no nariz envia esses pulsos diretamente para o nervo trigêmeo.
O resultado? Após um período de treinamento, o cérebro dos pacientes anósmicos aprendeu que “aquela vibração específica” significava “fumaça”, e “outra vibração” significava “hortelã”. O cérebro é tão adaptável que consegue aprender uma nova linguagem sensorial. É o primeiro grande passo para a criação de próteses que vão devolver a percepção química às pessoas!
Mês da Conscientização da Anosmia: 5 Dicas de Segurança em Casa
Enquanto essas inovações chegam ao público, quem vive com anosmia precisa adaptar a rotina, já que o corpo perdeu grande parte de seu alarme natural para o perigo. Se você ou alguém que você ama tem anosmia, adote estas cinco práticas simples:
- Aposte na tecnologia dos alarmes: O olfato não vai te acordar em caso de fumaça, mas um alarme sonoro sim. Instale detectores de fumaça e de vazamento de gás pela casa.
- Confie na etiqueta, não nos olhos: Não dá para saber se o leite azedou só olhando. Crie o hábito de anotar a data em que abriu qualquer embalagem e respeite rigorosamente as datas de validade. Na dúvida, descarte.
- Cuidado redobrado na limpeza: Mesmo que você não sinta o cheiro forte da água sanitária, o seu nervo trigêmeo ainda sente a agressão química e pode inflamar silenciosamente. Limpe sempre com as janelas abertas e o ambiente ventilado.
- Cozinha mais segura: Se for possível, troque o fogão a gás por um modelo elétrico ou de indução (cooktop). Isso corta o risco de vazamentos invisíveis pela raiz.
- Peça seu “teste do cheiro”: Não tenha vergonha de pedir para alguém de confiança dar uma “cheiradinha” naquela roupa guardada há meses ou em um produto antes de usar. É uma atitude inteligente de autocuidado.
O Centro de Pesquisa do Olfato do Grupo Boticário segue apaixonado por entender cada detalhe de como sentimos o mundo. Nosso compromisso é trazer conhecimento científico que transforme não só a ciência, mas o bem-estar de todos.
Referências bibliográficas:
Karunanayaka PR, Lu J, Elyan R, Yang QX, Sathian K. Olfactory-trigeminal integration in the primary olfactory cortex. Hum Brain Mapp. 2024 Jul 15;45(10):e26772. doi: 10.1002/hbm.26772. PMID: 38962966; PMCID: PMC11222875.
Stanley HB, Lipp C, Mignot C, Weise S, Garefis K, Fieux M, Tsakiropoulou E, Genetzaki S, Dubreuil R, Ferdenzi C, Carulli M, Bertolini M, Rossoni M, Bertsch A, Brugger J, Hummel T, Konstantinidis I, Bensafi M. Substitution of human olfaction by the trigeminal system. Sci Adv. 2025 Nov 28;11(48):eadu7926. doi: 10.1126/sciadv.adu7926. Epub 2025 Nov 26. PMID: 41296861; PMCID: PMC12652247.