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16 de dezembro de 2025

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A ciência do “cheiro de natal”: por que o verão brasileiro tem uma assinatura olfativa própria?

Quando pensamos em cheiro de Natal, nosso cérebro faz uma mistura curiosa entre a fantasia e a realidade. Existe o imaginário dos filmes (o pinho e a neve), mas existe a realidade sensorial vibrante do Brasil.

Aqui, o Natal tem o aroma inconfundível da rabanada com canela fritando, do cheiro doce e fermentado do Panetone (ou Chocotone) ao abrir a caixa, misturado ao protetor solar, ao churrasco de domingo e àquela chuva de verão que cai no fim da tarde.

Isso não é aleatório. É a ciência do Geo-Olfato em ação. Para nós, do Centro de Pesquisa do Olfato, entender essas nuances vai além da nostalgia; é compreender como a fisiologia, a física e a cultura moldam o nosso bem-estar e nossas emoções.

1. A física do verão: por que o cheiro “explode” em dezembro?

O primeiro conceito para entender o Natal brasileiro é o Smellscape (Paisagem Olfativa). Pesquisas mostram que o smellscape refere-se ao ambiente olfativo geral, mas reconhecendo que, como seres humanos, percebemos isso parcialmente em qualquer momento.

No Brasil, o fator determinante dessa paisagem é o calor. Fatores ambientais, como a temperatura do ar, têm um impacto significativo na detecção do odor.

A temperatura elevada de dezembro altera a física dos odores. O calor fornece energia às moléculas, aumentando sua taxa de evaporação e concentração. Isso significa que os cheiros no Natal brasileiro são fisicamente mais intensos:

  • O cheiro da baunilha do Panetone se expande rapidamente na cozinha.
  • O cheiro do asfalto molhado após a chuva sobe com força.
  • Fragrâncias frescas e cítricas ganham mais destaque e volatilidade.

2. Patrimônio olfativo: da rabanada ao caju

Se o smellscape é o clima, o Patrimônio Olfativo é a nossa cultura. Cientificamente, o patrimônio olfativo trata dos cheiros que são significativos para uma comunidade devido às suas conexões com lugares, práticas, objetos ou tradições importantes.

O Brasil é um país continental, e nosso “mapa olfativo” de dezembro varia imensamente, misturando o tradicional com o regional:

  • O Clássico Brasileiro: O cheiro de açúcar e canela da rabanada e o aroma do Panetone são marcadores temporais. O cérebro sente esses cheiros e ativa o “modo festa”.
  • Nordeste (A Safra Tropical): Além da comida, o ambiente cheira a Caju e à brisa do mar.
  • Sul (O Brinde): O cheiro da uva e do espumante gelado se mistura ao defumado do churrasco.
  • Sudeste/Centro-Oeste (A Chuva): O cheiro de terra molhada é onipresente nas tardes de dezembro.

3. A ciência da felicidade: o segredo é a “congruência”

Por que nos sentimos tão bem ao sentir esses cheiros? A resposta não está apenas na memória, mas na interação fisiológica.

Um estudo científico recente investigou os efeitos fisiológicos de estímulos olfativos e visuais. A descoberta foi fascinante: a interação de odores e paisagens correspondentes (ver e cheirar ao mesmo tempo) foi capaz de relaxar e revigorar o corpo de forma mais eficaz do que apenas cheirar ou ver separadamente.

O Exemplo da Rabanada: Quando você vê a rabanada dourada (visual) e sente o cheiro de canela (olfato), seu cérebro processa uma informação completa e congruente. Isso gera uma resposta fisiológica de prazer e relaxamento superior.

Por outro lado, cheiros artificiais desconectados do contexto (como um cheiro sintético de “neve” num dia de 35°C) podem não ter o mesmo efeito positivo. Participantes de pesquisas relataram que cheiros artificiais eram frequentemente descritos como desagradáveis ou pungentes, evocando emoções negativas.

4. O bem-estar no “cheiro de agora”

Estudos sobre intervenções baseadas na natureza mostram que experimentar o cheiro das plantas pode facilitar a redução do estresse e apoiar a recuperação mental. O cheiro natural atua como um catalisador para a consciência sensorial.

Neste Natal, a ciência sugere que a melhor experiência olfativa é aquela que abraça a nossa realidade e cria harmonia:

  • Conecte-se com a natureza: Aproveite o cheiro das frutas da estação que decoram a mesa.
  • Valorize o processo: Sinta o cheiro da comida sendo preparada, pois isso faz parte da experiência multissensorial.
  • Use fragrâncias adequadas: Perfumes que “conversam” com o calor (notas frescas, aquáticas ou florais) ajudam a criar essa congruência sensorial que nosso cérebro adora.

O verdadeiro “cheiro de Natal” é aquele que conecta você ao momento presente e ao seu bem-estar.

Referências Bibliográficas

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Pálsdóttir AM, Spendrup S, Mårtensson L, Wendin K. Garden Smellscape–Experiences of Plant Scents in a Nature-Based Intervention. Frontiers in Psychology. 2021;12:667957. doi: 10.3389/fpsyg.2021.667957

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Xiao J, Aletta F, Radicchi A, McLean K, Shiner LE, Verbeek C. Recent Advances in Smellscape Research for the Built Environment. Frontiers in Psychology. 2021;12:700514. doi: 10.3389/fpsyg.2021.700514